Estoi num período de silêncio! Sim, “estoi” em espanhol mesmo, pois é algo que não habita em mim! Reflete o distanciamento de mim mesmo, algo longínquo!

Em meu silêncio, tentei arrancar de mim Andrea Bocelli, All Divo, Ave Maria na versão do filme “Modigliani”.

Também tentei jogar fora todos os poemas em mim “inscritos”. Neruda, Vinicius de Moraes, Shakespeare, Manoel de Almeida, Manoel Bandeira, Rubem Alves, etc…

Insisti em tentar deixar de lado o romantismo de Flávio Venturini, as sonatas de Bach, Beethoven e Mozart.

Tentei não andar de bicicleta, não tomar café da manhã, não ver o nascer e o pôr do sol, e não voltar a pé para casa após o trabalho.

Tentei ler a bíblia sem comentários, não ler meus artigos publicados nos jornais de sábado e não acordar cedo.

Confesso que tentei…

Tentei não me incomodar com os que sofrem, não sentir a dor dos oprimidos e nem alimentar os famintos.

Tentei dormir mais tarde, não assistir comédias românticas, romances e nem me encantar com os desvendamentos dos crimes nos filmes policiais.

Tentei ler menos e assistir mais televisão (nada assisto)! Tentei falar mais e ouvir menos… “juro” que tentei…

Tentei não dar muita atenção às pessoas, não cumprimentá-las. Atravessar a rua quando defrontado com o morador de rua e ignorar aqueles que desfazem dos seres viventes!

Tentei acreditar em Silas Malafaia e nos políticos do nosso congresso!
E também nos políticos de minha cidade e nos organizadores do
“grande congresso” pentecostal chamado Gideões!

Tentei pregar menos sobre o pecado, deixar de fazer missões
voluntariamente e não ser tão amigável com meus pacientes.

Tentei não dar meu ombro amigo, não oferecer nenhuma palavra de
consolo e esperança aos que perecem e ignorar a fala dos
desesperados.

Tentei dizer não aos que pedem favores, não dizer a verdade e não
andar de mãos dadas com minha esposa e filha.

Tentei não olhar o céu à noite, ignorar a presença das estrelas e
esnobar a grande testemunha da noite chamada de Lua!

Confesso que tentei…

Tentei não ler os discursos de Mártir Luther King, os sermões de
Santo Agostinho e as pregações de Lutero.

Tentei não ler artigos de Ed Renée, Ricardo Gondim e Ariovaldo
Ramos.

Tentei não atender ao telefone daqueles que sabia que era
inconveniente, não tomar banho pela manhã e não usar perfume.

Tentei não escovar os dentes após algumas refeições, não jogar lixo
no lixo e ignorar aqueles que assim não fazem!

Tentei não orar muito, não crer nas loucuras de Deus e nem em meu
ministério.

Tentei não perdoar, guardar mágoa e fazer o mal!

Tentei não ver beleza na natureza, na fala das crianças e na
misericórdia e graça de Deus!

Confesso que tentei…

Tentei me conformar com a transgressão da lei, com o desrespeito
aos mais velhos e com a arrogância de algumas autoridades.

Tentei não acreditar em Freud, Lacan e na Carta de Thiago! Tentei
menosprezar o efeito benéfico da análise e a existência de milagres.

Tentei não escutar jazz, Frank Sinatra e Nat King Cole.

Tentei não sonhar tanto, não viajar muito e gastar menos.

Tentei ter menos compromisso com a igreja e com as coisas de Deus.

Tentei não ir às cachoeiras e não sair sem rumo pelas estradas a fora.

Tentei não pensar tanto, agir mais e escrever menos!

Confesso que tentei…

Confesso que sofri…

Confesso que não consegui…

Confesso que nunca mais tentarei… Pois este sou eu! Esta junção de
certeza e contradições; de fé e descrença; de alegria e dor.

Confesso que tentei não dizer……………… que Deus lhe abençoe!